quarta-feira, 1 de julho de 2015

A NOVA MUSEOLOGIA NA AMERICA LATINA-O CASO MEXICANO.
Patrícia Berg Oliveira*


Palestra da autora em 25 de junho de 2015 na FABICO-Curso de Museologia/Disciplina: BIB 03237 História dos Museus e dos Processos Museológicos.

A palestrante apresentou um histórico da população mexicana sua história política, a partir de 1810. Também trouxe o relato da participação de representantes do México nos encontros do ICOM desde 1958 e a Nova Museologia em território mexicano, através do PRODEFEM-Programa para Desenvolvimento da Função Educativa nos Museus e o Programa de Museus Comunitários e Ecomuseus. 
O México participou, inclusive com sua experiência, dos eventos realizados em 1958-Rio de Janeiro(Seminário sobre Função Educacional dos Museus), 1962-México(O Museu como Centro Cultural da Humanidade), 1972-Chile(Mesa-Redonda sobre o Desenvolvimento e Papel do Museu no Mundo Contemporâneo), 1984-Canadá (Princípios de Base de uma Nova Museologia) e 1984-México(Território-Patrimônio-Comunidade (Ecomuseus)-O Homem e seu Entorno. Nas primeiras discussões já integra aos seus discursos de museu ao conceito de comunidade. Seus representantes também vêm o museu como modificador da realidade e problematizam a questão social na interface com museus. Em 1972, em Santiago do Chile, Mário Vasquez propôs a criação de museu integrado no âmbito do Museu Nacional de Antropologia/México. Trouxe indígenas (origem da maioria da população mexicana) para construir exposição sobre o tema. Na Casa Del Museo aplicava o conceito de patrimônio do homem, gerido pelo homem em seu interesse, em detrimento do tradicional coleta-expõe. Propõe o espaço onde a contribuição cultural daquele grupo deveria ser compreendida, democratizando os museus, com seus problemas cotidianos. O resultado foi um processo de conscientização da população acerca de seu patrimônio.  
No depoimento sobre os programas citou o Programa de Desenvolvimento das Funções Educativas nos Museus(1983-1992) que se baseou na experiência da Casa Del Museo e o projeto de Museus Escolares. Apesar de finalizado, rendeu a criação de perto de 100 museus escolares em território mexicano. A partir de 1993, amparado nas experiências anteriores com atenção às populações rurais, mestiças e indígenas, foi dado início ao Programa de Museus Comunitários-Ecomuseus que propõe ações solidárias no convívio social, integrado ao meio no qual vivem.       



Museólogo Mario Vasquez em 2013, homenageado na Universidade Nacional do México. 



Fontes:

Palestra em aula
VASCONCELLOS, Camilo Mello. Imagens da Revolução Mexicana: o Museu Nacional de História do México (1940-1982). São Paulo: Alameda, 2007.
docvirt.com/docreader.net/WebIndex/WIPagina/BibVirtMHN/5463
http://www.jornada.unam.mx/2013/01/25/cultura/a06n1cul

Sobre a autora: Pedagoga, Mestre em Educação pela UFRGS, atualmente responsável pelo Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural do município de Porto Alegre-RS. .


Museus em tempos de guerra:

Quem vê as obras expostas de Velázquez, Goya, e Rubens no Museu do Prado, em Madrid, pouco sabe da história de corajosos espanhóis que, em busca de segurança, dalí removeram em mais de 1.800 caixas este patrimônio artístico espanhol em plena Guerra Civil Espanhola. Acondicionadas em caixas preparadas para este fim, as obras foram levadas em caminhões para Valência, posteriormente para Catalunha e Genebra e retornaram íntegras durante a Segunda Guerra ao solo espanhol.
Este fato é relatado no filme LAS CAJAS ESPAÑHOLAS de 2004 de Alberto Porlan e no livro ÉXODO Y EXILIO DEL ARTE: LA ODISEA DEL MUSEO DEL PRADO DURANTE LA GUERRA CIVIL de Arturo Colorado Castellary.  Em sua jornada enfrentam vários perigos, como bombardeios aéreos do grupo nacionalista e até obstáculos físicos, como no episódio no qual a baixa altura de uma ponte obrigou os transportadores e remover as obras dos caminhões e ultrapassá-la carregando pessoalmente as caixas. O período no qual as obras ficaram ausentes do Museu do Prado foi de  nov-1936 quando a cidade de Madrid se viu sitiada e o governo se transferiu para Valência a set-1939, já no regime do General Francisco Franco.   

Inventário das peças.


Preparo das caixas para transporte.

Todo processo de realocação esteve a cargo da Junta de Defesa do Tesouro Artístico Nacional e, prévio ao seu início, foram realizadas operações para garantir a integridade das peças: seleção, exame das condições nas quais se encontravam, elaboração de fichas para seu registro(medidas, autor, nome, saída, chegada..), preparação e colocação nas caixas de transporte, preparo da frota de caminhões, entrega e colocação das obras nos depósitos provisórios que as abrigaram nestes quase três anos.  
Abrigadas na Suíça devido ao avanço das tropas nacionalistas que promovia a realocação do governo espanhol e das obras, se constituiu o Comitê Internacional para Salvaguarda do Tesouro Espanhol quando foram transportadas à Suíça. Solicitada em 1939 a devolução ao povo espanhol, um trem sai de Genebra e, com luzes apagadas para escapar dos bombardeios já em meio ao conflito da 2ª Guerra, devolveu as obras ao Museu do Prado em outubro de 1939.
Ao trazer ao público esta história, o livro e o filme homenageiam o gesto de coragem e amor à arte de cidadãos espanhóis, incansáveis na salvaguarda de importante patrimônio.     
 
Transporte em caminhões para seus depósitos provisórios.


Reposição do acervo no Museu do Prado-Madrid. 


FILME DISPONÍVEL EM: https://www.youtube.com/watch?v=_k8GSiiiM98
http://www.uhu.es/cine.educacion/cineyeducacion/historia_guerracivil_bicicletas.htm

Há hipocrisia no lamento por Palmira

Por: Luiz Antônio Araujo-Jornal Zero Hora-Porto Alegre-RS
22/05/2015 -
Hipocrisia é um dos ingredientes mais abundantes nos lamentos pelo destino de relíquias históricas do Iraque e da Síria diante do avanço do dito Estado Islâmico-EI. No caso do Iraque, o saque ao patrimônio histórico e cultural começou muito antes da existência do EI: data do momento mesmo em que as forças americanas entraram em Bagdá, em abril de 2003.

Um levantamento feito por iniciativa do próprio governo americano na época da invasão listou entre 14 mil e 15 mil peças roubadas do Museu do Iraque. A pilhagem teria sido obra de pelo menos três grandes grupos: ladrões profissionais (miraram tesouros valiosos), vândalos (surrupiaram cerca de 3 mil artefatos arqueológicos) e empregados do próprio museu (interessados em joias e cilindros de selo).
Patrimônio artístico e cultural sempre foi alvo fácil durante conflagrações. Em 2012, centenas de obras de arte suspeitas de terem sido pilhadas pela Alemanha foram descobertas na casa do filho do famoso colecionador Hildebrand Gurlitt, negociador de “arte degenerada” durante a era nazista, em Munique.
Hitler exigiu que Paris fosse arrasada em 1944 (como ocorreria com Varsóvia), e as maravilhas da capital francesa só sobreviveram porque a ordem foi desobedecida. Os museus do Afeganistão foram arrasados nos últimos 20 anos. Pouco resta da arte do período Khmer no Camboja depois que o Depósito de Conservação de Angkor foi arrasado pela guerra civil nos anos 1970.
Nada disso absolve o EI de seus crimes flagrantes contra o patrimônio cultural, como os registrados em Mossul, Nínive e Nimrod. Em artigo publicado na revista The New Yorker, o repórter americano Dexter Filkins lembra de ter visitado Palmira em 2003 e pensado que, afinal, o ditador Bashar al-Assad merecia crédito por deixar o oásis em paz – algo que provavelmente não poderá ser dito em relação ao EI.
Ruínas da cidade romana Palmira, na Síria, que já foi importante ponta da Rota da Seda. 
A ironia é que, entre domingo e quinta, as forças de Al-Assad parecem ter simplesmente fugido de Palmira. Agora, só um milagre pode salvar a cidade histórica.


O “Colecionismo Ilustrado” na gênese dos museus contemporâneos. 

 ALMEIDA, Cícero Antonio Fonseca de(1)

A partir do século XVIII, no contexto sócio-político de nascimento dos estados nacionais europeus, fortalece-se a noção de patrimônio que deve ser preservado, representando a nação.  A prática colecionista anterior, entretanto, é que deu lastro a este (re)descobrimento do valor simbólico presente nos objetos e obras.
Torna-se importante compreender  esse processo quando os objetos perdem seu função original e, envolvidos em desejos e intenções, recebem um novo significado. Os objetos de uma coleção deixam de ser utilizados na forma em que foram concebidos e passam a ter significado. Mesmo objetos construídos ‘sem função’ passam componentes de um novo sistema onde são analisados à luz da cultura que os envolve.  Passam a ser ‘recontados’ pelos olhares de quem os adquiriu e do público visitante.  Pomian(2) sintetiza a transformação de objeto utilitário para objeto-símbolo nas coleções e nos museus:


...as fechaduras e as chaves que não fecham nem abrem
porta alguma....aos relógios que ninguém espera a hora
exata...Tudo se passa como se não houvesse outra finali- 
dade do que acumular os objetos para os expor ao olhar...
  
A ‘invenção’ do museu.
A Revolução Francesa que fortaleceu o conceito de ‘patrimônio nacional’ foi o ponto de partida dessa nova concepção expandida posteriormente aos nascentes estados nacionais. Sob as normativas da Assembléia, bens da igreja e da nobreza foram confiscados para se tornarem, como propriedade pública, símbolos da nação emergente.  A partir daí, vê-se o nascimento do Louvre-na própria sede monárquica, do museus dos Monumentos Franceses e outros, com a denominação de museu, que já vinha identificando estes espaços desde o Renascimento(sec XIV-XVI).  O resgate dessa denominação  rende homenagem à Alexandria como local de estudos e discussões entre sábios. 
Se a consolidação dos estados nacionais contribuiu para a formação dos museus, também há de se incluir nesse processo o colecionismo, herdado da Antiguidade Clássica com sua releitura nos valores iluministas que buscavam explicações racionais do mundo e resgate dos valores da Antiguidade.
Louvre
Foi no Iluminismo, baseado na ciência e na razão, que à pratica colecionista se incorporaram as características vistas nos museus públicos contemporâneos pois se intensificou o proceder científico, sistematizando e especializando o conhecimento. Os gabinetes de curiosidades começaram a assim se orientar, reorganizando-se. Publicam-se inventários da natureza e as obras artísticas contextualizam-se nos períodos históricos. Na prática colecionista, foi deixada  de lado a ‘curiosidade’ e ‘raridade’ para agregar os conhecimentos histórico e científico, como hoje os vemos.     
      


(1)Sobre o autor:
Museólogo, com mestrado em Memória Social e Documento pela Universidade do Rio de Janeiro-RJ, professor da Escola de Museologia da UNIRIO.


Fontes:
ALMEIDA, Cícero Antonio Fonseca de. O “Colecionismo Ilustrado” na gênese dos museus contemporâneos. Anais do Museu Histórico Nacional. Rio de Janeiro: Ministério da Cultura/IPHAN, nº 33, 2001.p.123-140.    
  

 (2) Pomian, Krzysztof. Coleção.In Enciclopédia Einaudi. vol.1, Memória-História. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1983. 

terça-feira, 30 de junho de 2015

O museu fechado

                                                                               Giraudy, Daniele 


As origens do museu.
O museu surge em decorrência da coleção. A referência para sua origem são os santuários dos templos dedicados às musas que recebiam doações de devotos, formando a futura coleção dos museus. Em Alexandria, junto da biblioteca, universidade, jardins zoológico e botânico, o Muséion é o local de ensino e debates filosóficos. Antes disso, na Grécia, era edificado o o Muséion na Colina de Hélicon-Atenas. 
Musas Gregas

Construir uma coleção é um hábito que pode ser observado em animais e humanos, como a criança que assim exerce sua compreensão do mundo, classificando-o.
A formação da coleção envolve também episódios extenuantes, como a busca do objeto mais raro, mais distante, mesmo quando se trata de dito 'banais'.
Abrigadas em gabinetes de curiosidades ou câmaras das maravilhas, reuniam uma miscelânea advinda dos reinos mineral, vegetal e animal, assim como objetos e obras raras. Constrói-se, adiante, a divisão entre as artes e as curiosidades neste lote único dando origem aos museus de artes e aos museus de história natural. Também surgem as galerias como espaços destinados às exposições de quadros e esculturas.
Localizadas em residências de monarcas e papas, as galerias se caracterizam por uma sala longa com paredes preenchidas por pinturas suspensas e pedestais no piso para suporte de esculturas. Já os museus de história surgem das galerias iconográficas dos castelos onde os protagonistas da história e do pensamento são evocados.
Acerca dos museus pedagógicos, o primeiro, Museu Ashmolean/Oxford/ Inglaterra, surge em 1683 (a seguir imagens de 1760-fachada e seu interior em 1836).



Os grandes museus do século XIX.
Na Revolução Francesa e nos movimentos nacionalistas presentes na Europa, surge a noção de patrimônio pertencente a todos. Com suas coleções e outras advindas de conquistas militares e expedições foram abertos os grandes museus metropolitanos: British Museum (1753), Louvre, Museu dos Monumentos Franceses(1793), Artes e Ofícios e Museu de História Natural(estes em 1794).
Criados, surge a necessidade de ordenar seu conteúdo dando lógica e cadência ao material exposto.
British Museum 
Louvre

No século XIX, todas as grandes capitais já possuem seus museus, pois além dos já citados, criam-se os museus de São Petersburgo, Munique, Berlim, Bruxellas e Amsterdan. Longe do eixo europeu, em Washington-EUA, nasce a Fundação Smithsonian, de caráter privado-para museus e pesquisas.
Sobre a arquitetura que exibem seus prédios, assemelham-se a palácios imponentes. Já nos museus norte-americanos repete-se a presença de um frontão, cúpulas de basílica e colunas nos Museu Metropolitano de Artes e no Museu de História Natural, ambos de Nova Iorque.    
MET/NY-1870
      
Os museus ao ar livre e os museus de folclore.
Surgem no século XX os parques nacionais norte-americanos e museus ao ar livre, especialmente em terras nórdicas com os museus do folclore e artes tradicionais. Há exemplos na Suécia e vizinhos, Munique, França, Boston e Chicago. Também se observa que os museus se apresentam na contemporaneidade em prédios diversificados com espaços e comodidades múltiplas, mas com ênfase em crianças, pesquisadores, grupos e portadores de necessidades especiais. Com o desafio de adequarem-se a ações sustentáveis, a partir dos últimos anos, vários museus tomaram providências na incorporação em seu uso de energia de fontes renováveis. 

  


Sobre a autora:

GIRAUDY,  Daniele-conservadora de patrimônio, iniciou sua carreira em 1965 no Museu de Belas Artes de Marsèlle/FR após a conclusão de seus estudos na Escola do Louvre. Dirigiu o Centro George Pompidou-Paris. È membro do ICOM e da Associação Internacional de Críticos de Arte.


Fonte:  
GIRAUDY,  Daniele, O museu e a vida. Rio de Janeiro: Fundação Pró-Memória, 1990.  

COLEÇÃO


Pomian, Krzysztof
Existe um número incontável de obras em museus e em coleções particulares, não abrigadas num único inventário. Os museus podem ser classificados em categorias (arte, ciências, história...) enquanto nas coleções particulares descobrem-se objetos que muitas vezes podem ser classificados como ‘banais’. O autor propõe um questionamento: como caracterizar objetos tão diferentes entre si?  Retirados do uso para os quais foram construídos/confeccionados e recolhidos a um local de coleção, estes objetos perderam a utilidade de sua criação e passam a ter a função de serem observados. Mas, mesmo com sua  utilidade banida para sempre são protegidos de fatores externos (umidade, poeira, temperatura..), restaurados e expostos de modo a não serem tocados.  Passam a ser vistos, mas não tocados! Por seu caráter de peças preciosas e conhecendo-se o grande valor que as envolve, parece contraditório que estas coleções estejam ao alcance de nossos olhos.
A despeito de coleções formadas com finalidade especulativa, há  coleções transformadas em museus com investimentos continuados, como vários exemplos conhecidos na Europa e EUA.   Mesmo tratando de diversidade em sua construção, podemos obter um ponto de convergência entre os museus e coleções, quer seja, de que sempre se trata de um conjunto de objetos que situam-se fora do circuito da atividade econômica – para a qual foram construídos, e que protegidos, estão ao alcance de nosso olhar.  Pomian informa em seu artigo que os objetos de uma coleção adquirem o caráter de preciosos, mas questiona: Como atribuir valor de uso, já que foram adquiridos para serem expostos e não para uso? Por que são considerados preciosos? Conclui que os objetos são fonte de prazer estético e permitem ao espectador adquirir conhecimento científico e/ou histórico. Conferem prestígio ao detentor – valor simbólico, demonstrando o apurado gosto, curiosidade intelectual, riqueza e generosidade.

Uma coleção de coleções.
Não é difícil encontrar os conjuntos de objetos naturais ou artificiais mantidos temporária ou definitivamente fora do circuito das atividades econômicas, submetidos a uma proteção especial e expostos ao olhar. Podem ser achados em tumbas/templos, palácios e residências de particulares.    
► mobiliário fúnebre: inumar o corpo com objetos que lhe pertenciam em vida: instrumentos, armas, jóias, tapeçarias, obras arte.... 
► oferendas: também nos templos, como nos museus,  se acumulavam e eram expostas as oferendas. O objeto oferecido ao deus torna-se sagrado-majestoso e inviolável, como os deuses. Tocá-los ou subtraí-los é sacrilégio.  
► presentes e despojos: objetos mantidos fora do circuito de atividades econômicas também se acumulavam na residência dos detentores do poder. Eram exibidos apenas em festas/cerimônias. Os despojos parecem estar na origem das coleções particulares em Roma.
► as relíquias e os objetos sagrados: itens que se crê tenham entrado em contato com um deus ou herói. O apogeu da relíquia deve-se, entretanto, ao Cristianismo, ao difundir o culto aos santos.
► os tesouros principescos: uso cerimonial (anéis, cruzes,..), profano (baixelas); curiosidades naturais : astrolábios, mapas....

As coleções: o visível e o invisível.
Mesmo tratando de objetos diversos, há entre todos os objetos das coleções uma unidade: unem o mundo visível ao invisível. Funcionam como comunicadores entre os dois mundos, desde que exposto ao olhar. Desse modo, os objetos tornam-se intermediários entre nosso olhos e o mundo que representam.  O invisível é o que está longe-no tempo e no espaço... Todos, entretanto, cumprem uma função que é de mediarem a relação entre quem os olha e os habitantes de um mundo que não é o mesmo do espectador. Assim, os objetos cumprem a função de intermediários entre espectadores e um mundo invisível (onde proliferam mitos,  contos, história). Esta condição é universal, o que permite afirmar que a coleção é também uma instituição universal.

Utilidade e significado:
É a linguagem que engendra o invisível. Ela se dá pela narrativa do objeto que pode ser oral, escrita... Ela nos dá a certeza  de que aquilo que estamos vendo é apenas uma parte do que existe. A oposição entre o invisível e o visível ocorre entre aquilo de que se fala e aquilo que se percebe. Sobre a função de representar algo invisível, podemos estabelecer a relação A-B, onde A é o objeto e B o que o objeto gera, o mudo dos significados. Também, se B é invisível, A-que é visível, o representa.        

As coleções particulares e os museus:
Na Europa, no período 1350-1400, começam a surgir novas relações com o invisível. Os vestígios passam a ter significado quando relacionados com textos provenientes da Antiguidade. Tornam-se, então, objeto de estudo – surge uma nova classe de semióforos(aqueles que se estudam). E um novo grupo social, os humanistas, passa a ter interesse por esta categoria de semióforos.  Formam-se primeiramente na Itália e posteriormente nas cortes principescas.  Na segunda metade do século XVI, a moda de colecionar antiguidades difundiu-se entusiasticamente em todos países europeus e em diversos ambientes e inclusive instituições como College of  Antiquaries-Inglaterra. As expedições que conduzem bens à Europa também levam o saber e novos semióforos: tecidos, ídolos-sem valor de uso, mas trazendo o invisível: sociedades diferentes, outros climas... Não se tornam objeto de estudo, mas curiosidade. Outras categorias de semióforos podem ser citadas: obras de arte e quadros, assim como equipamento e instrumental científico.
Se na Idade Média as coleções estavam nas mãos de igreja e príncipes, já no final do século XIV aparecem os humanistas, antiquários, artistas e cientistas, formando gabinetes de curiosidades, galerias de pinturas e esculturas, bibliotecas... A aquisição de semióforos (arte, coleções...) agrega ao comprador uma alta posição exposta pela riqueza,  saber, refinamento...
Formada a demanda, começa a existir um mercado de obras de arte, antiguidades, itens diversos... São realizadas vendas públicas com publicação de catálogos (conhece-se publicação na Holanda de 1616). A partir do século XVIII, o grande centro de vendas públicas é Amsterdan, sucedida por Londres e Paris. Na Itália-o país que maior número de peças de arte acumula, a venda se faz em lojas de mercadores, diferente das demais cidades. 
O aporte financeiro para acesso aos semióforos é cada vez maior e por isso os adquirentes voltam-se a objetos de menor valor, como moedas, estampas, exemplares de história natural... Tornam-se cobiçadas, então o interesse se desloca para objetos anteriormente desprezados: produções medievais e de povos não europeus, arte popular. Neste ambiente e premidos poela vontade de mais conhecer a seu respeito, surgem as teorias para classificação, localização no tempo, etc. conhecimentos da arqueologia, paleontologia, história da arte e etnografia. 
A observação dos itens acumulados se dá nas visitas consentidas dos proprietários e que ocorriam num mesmo meio social e de artistas e estudiosos. Com a melhora do poder econômico, os antes impedidos de acessar as obras, como sábios, escritores, eruditos e artistas, começam a buscar acesso aos semióforos necessários as suas atividades.  Para disponibilizar a este público livros, manuscritos, objetos, são fundadas as bibliotecas e posteriormente, os museus.   
A característica presente nos museus é a                            
permanência, ele sobrevive mesmo com advento    
da morte de seus fundadores. É uma instituição
pública eis que o museu privado se trata de uma
coleção particular.  O ponto de partida é de uma
autoridade ou da coletividade que posteriormente
assume sua manutenção. São aberto a todos e celebram o passado e se tornam depositários daquilo que conta a história de uma nação, um povo.    
  
Fonte: POMIAN, Krzysztof. Enciclopédia Einaudi volume 1-Memória e História, Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1984.

Sobre o autor:
POMIAN, Krzysztof – (1934-) Filósofo, historiador e ensaísta polonês, é porofessor de História na Universidade Nicolau Copérnico-Torúm/Polônia  e Diretor do Museu da Europa em Bruxellas-Bégica. 

sábado, 27 de junho de 2015


ALTES MUSEUM / BERLIM 



                      A edificação tem formas retangulares e teto plano. A fachada com 87 metros, possui dezoito colunas. A denominação de Altes Museum (Museu Antigo) foi dada em 1845, pois, até então, era conhecido como Museu Real (Königliches Museum). Na fachada exibe a inscrição: “Friedrich Wilhelm III fundou este museu para o estudo de todos os tipos de antiguidades e das artes liberais em 1828”

        Na Ilha dos Museus, região central da cidade. 



Declarada Patrimônio Cultural da UNESCO em 1999 a Ilha dos Museus tem um precioso acervo distribuído entre seus cinco museus. 





1-Antiga Galeria Nacional (Alte Nationalgalerie), 2- Museu Antigo (Altes Museum), 3- Museu Novo (Neue Museum), 4- Museu Pergamon (Pergamonmuseum) e  5 -   Museu Bode(Bode Museum).


  O ALTES MUSEUM é o museu de referência mundial por exibir coleções de arte antiga grega, romana e etrusca. 
Sua construção iniciou em 1825 e foi inaugurado em 3 de agosto de 1830. E o mais antigo museu de Berlim. "É um dos primeiros edifícios construídos na Europa para um prédio público das artes"..(Britto,Fabiano).  

História: Iniciado por Frederico Guilherme I (1688-1740) por aquisições de coleções  privadas: Gerrit Reynst (marchand holandês), Giovanni Pietro Bellori (curador, escritor de arte), Cardeal Melchior de Polignac. As coleções estavam distribuídas por várias casa reais, sem acesso público. Em 1797- Wilhelm von Humboldt foi designado por Frederico Guilherme II a selecionar obras para formação de acervo público. Ao mesmo tempo eram adquiridas novas e importantes coleções, como a de bronzes e vasos do Cônsul-geral Bartholdy (1827) e a de 1.348 vasos do General Franz von Koller(1828).

Momento histórico: “desorganizados politicamente.. atrasados economicamente...precisavam elaborar um discurso cultura.. que legitimasse a unidade política desejada”... 

Seu primeiro diretor, Ludwig Tieck estabeleceu a catalogação das peças, método até então não utilizado. A coleção reunida era principalmente de peças gregas e romanas, além de algumas medievais, com uma grande seção de pinturas européias. Em 1831 outro grupo de 442 vasos foi adquirido de Dorow-Magnus, e o arqueólogo Eduard Gerhard doou em seguida as obras que havia colecionado, tornando a seção de vasos a mais importante do mundo.
        Historical photograph of the Altes Museum, before 1854.


  Entre 1843-1855 foi construído o Neues Museum em apoio ao Altes Museum já com espaço insuficiente para abrigar suas coleções.  
Mesmo com esta divisão, o espaço disponibilizado do Altes Museum ainda não era o bastante, e em 1883 decidiu-se dividir novamente o acervo, enviando as pinturas e as esculturas posteriores à Antigüidade para o Kaiser-Friedrichs-Museum (hoje o Bode Museum) que estava sendo construído.

Com o problema do espaço físico sempre presente, foi adquirida em 1884 uma grande coleção de Peter Alexandrovich Saburov, e novas peças foram chegando, provenientes de escavações patrocinadas pelo museu desde 1875 na área do Mediterâneo, incluindo Pérgamo, Olímpia, Mileto, Baalbek, requerendo a criação de um novo espaço de exposições


  



Durante a guerra o acervo foi dividido e guardado em locais seguros, mas muitas peças foram perdidas, destruídas, subtraídas. O prédio do Altes Museum foi praticamente destruídos pelo fogo causado por bombas em 08 de maio de 1945. Prováveis peças perdidas: 30 vasos de pedra, 1.500 de cerâmica e mais de 100 peças de joalheria.  

Em 1958 a URSS devolveu parte do botim de guerra que pilhara em 1945, mas sem uma sede própria estas obras, junto com as salvas do prédio antigo e que estavam em depósitos, foram provisoriamente instaladas no Pergamon Museum e no Castelo de Charlottenburg. 

Contudo a maior parte da coleção permaneceu em depósito, sem espaço para poder ser mostrada. O prédio antigo do museu foi restaurado de 1951 a 1966 e foi aberto novamente com parte do acervo, mas a coleção tardou a ser reunida. A partir de 1982 foi construída uma nova ala no Pergamon Museum para as esculturas e peças de arte. As obras que foram guardadas em Charlottenburg desde a Guerra lá permaneceram até 1995.





Fontes: 
www.berlin.de
www.aviewoncities.com/berlin
http://arthistoryresources.net/baroque-art-theory-2013
www.google.com/maps
www.smb.museum
Berliner Unterwelten e.V.The Berlin Underwordl Museum 
www.preussischer-kulturbesitz.de
www.preussischer-kulturbesitz.de
Britto, Fabiano de Lemos. Modos de habitar a história ou filosofia, cultura e arquitetura no Altes Museum de Berlim. (2011).  

Tarefa de aula realizada por Anelise e Susete .